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Felipão é um técnico ultrapassado?



Felipão, Mano Menezes, Abel Braga e Renato Gaúcho. São eles os técnicos mais badalados do futebol brasileiro atualmente. Entre muitas diferenças, algo em comum: Aplicam a escola brasileira de futebol em sua essência. A bola - e não o espaço - como referência; estímulo à vitória pessoal; movimentações orientadas pelo instinto; compensações, etc. Para muita gente, esse estilo de jogo representa o atraso e está fadado ao total desaparecimento. No lugar dele será implantado o jogo de posição, o estilo de jogo mais “evoluído” da atualidade. Não caiam nessa, quem pensa assim não passa de um monoglota: alguém que se recusa a aprender outras línguas futebolísticas e defende a sua como única a ser utilizada. Temos que cuidar da nossa tradição, destruí-la, jamais.
 
Não há um “jogo brasileiro” padrão, existiram diversas escolas ao longo de mais de um século de prática esportiva no país. Os times de Felipão são bem diferentes dos de Luxemburgo, que é muito distinto de Zagallo, e assim por diante. Até por isso, é um enorme equívoco bradar que toda essa infinidade de ideias perdeu a validade. Há uma coisa muito clara na história do futebol: as alterações táticas são precedidas pela constante evolução física do jogo. O dito “futebol moderno” é um esporte mais rápido, intenso e físico -- oriundo da evolução da nutrição, da fisiologia e da preparação física como um todo. Nesse contexto, os técnicos citados na primeira linha desse texto estão totalmente adaptados ao contexto atual, e sendo disso que se trata o termo darwiniano, estão sim, perfeitamente evoluídos. 

Utilizando termos da moda, Felipão é um treinador que se baseia no pressing e jogo direto. O que significa que seus times são extremamente agressivos sem bola, buscando roubá-la o mais próximo possível do campo de ataque, e quando com a posse, a ideia é chegar ao gol adversário o mais rápido possível. Isso está muito longe de ser ultrapassado, pelo contrário, é amplamente praticado em diversas equipes - importantes - mundo afora. 

Quando contratou Roger Machado, o Palmeiras buscava implantar o famigerado “jogo bonito”, com posse de bola e controle do adversário -- pois afinal, era a hora de resgatar a tradição da “academia palestrina”. O problema é que isso não tem a ver com o estilo A ou B de se entender futebol. O Palmeiras de Brandão, o Santos de Lula, o Flamengo de Carpegiani/Coutinho, o SPFC de Telê, o Barcelona de Guardiola, o Ajax de Cruyff, entre tantos outros, apresentavam uma estética altamente valorosa, com estilos completamente distintos. Roger teve pouco tempo de trabalho, sofreu com a perda de peças importantes, mas teve grande parcela de culpa em sua demissão. Seu pensamento um tanto radical na implantação de um sistema mais posicional sobrepujou o seu talento e conhecimento do esporte. Foi assim no Palmeiras, Galo e Grêmio. Os grandes técnicos sabem - como já declarou Pep Guardiola diversas vezes - que o jogo é, em última instância, dos jogadores. O elenco do Palmeiras não possuía atletas com as características para o ataque posicional que Roger tentou implantar. Infelizmente, Keno, o jogador que mais se sentiu à vontade no esquema, foi vendido em meio à temporada. Diferentemente dele, Dudu não tem essas características de um “ponta holandês”: conforto ao receber no pé, manutenção de uma posição mais lateral, e o uso do drible para quebrar linhas de marcação verticalmente. O melhor jogador do campeonato brasileiro de 2018 começou a mostrar todo o seu potencial quando recebeu liberdade para flutuar, cortar para o meio, ocupar a entrelinha e ter constante relação com a bola. Seria ultrapassado o técnico que permite que os jogadores atuem de maneira mais natural? Não faz o menor sentido. 

Que Scolari é um técnico pragmático, disso não há a menor dúvida. Ele mesmo fez questão de deixar bem claro diversas vezes que não valoriza tanto a estética, tendo o resultado como meta, apenas. Isso não é um demérito, é uma escolha que um profissional tem até fazer em sua carreira, e precisa ser respeitada. Agora, exigir um futebol primoroso e com estética esfuziante para um técnico que não teve pré-temporada, chegou em meio aos campeonatos e recém completou seis meses de trabalho evidencia certo tom de perseguição. Qualquer um pode gostar ou não de um determinado estilo de jogo, ter suas preferências e naturalmente defendê-las. O problema é quando se tenta quase que criminalizar o pensamento de um profissional. 

O caso é que qualquer clube tem o poder para escolher o tipo de profissional que melhor se encaixa no projeto atual daquela agremiação. Nada impede que amanhã o Palmeiras decida alterar o estilo de jogo do time e busque um técnico entusiasta de um estilo de jogo baseado em posse de bola. Seja por se tratar da preferência estética do diretor de futebol, seja pelo marketing de “time que joga bonito”, ou qualquer outra razão. O essencial para que isso dê certo é entregar ao técnico: atletas com essas características, tempo, e muita paciência. No fim, fica claro que não se trata de qual a maneira correta de se pensar futebol, e sim, de adequar as características de um técnico e seus jogadores. Tendo essa sintonia, qualquer filosofia de jogo pode ser vitoriosa, e bela.

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